Sobre os fãs dos Jeans e Bolsonaros. Ou, o bom senso de férias.

Numa sociedade equilibrada, os moderados se aproximam, negociam, se comprometem, geram um mínimo consenso para o bem comum. O nome disso é política. Numa sociedade doente como a nossa, os moderados se afastam, e se aproximam dos radicais. Aquilo que eles abominam nos radicais passa a ser um ‘mal menor’ em função de um suposto ‘inimigo comum’ (o outro polo do espectro político), a fim de obter um suposto ‘bem maior’. Ou ainda, em outras palavras, “os fins justificam os meios”, a filosofia mais doentia que neste momento qualquer um poderia escolher adotar. 

Os moderados de direita que se afastam do centro sabem muito bem onde estão se metendo… Foi assim no período pós-64 também. Enquanto democratas moderados de esquerda brigavam com comunistas e democratas moderados de direita fingiam não saber de nada, os radicais de direita junto aos militares faziam a festa, com cada vez mais requintes de crueldade, exercitando também seu sadismo institucional.

Hoje a festa é dos saqueadores da república. Quem faz vistas grossas são os moderados da esquerda. E os moderados da direita se aproximam dos radicais militaristas higienistas fascistas.

Tristes tempos em que o bom senso tirou férias prolongadas.

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2015, o ano da Intolerância.

Parecemos ir sempre do oito ao oitenta. Este comportamento ditatorial, autoritário e maniqueísta, esse modo de ser “comigo ou contra mim” invadiu nossas vidas. Parece ter chegado para ficar. E, honrando um verdadeiro “Ensaio sobre a Cegueira”, como o de Saramago, podemos identificar de longe o mau comportamento dos outros, mas nunca o nosso mesmo.
Se eu sou da esquerda socialista sou um anjo de altruísmo e quero o melhor para a sociedade, desde que a sociedade não contenha gente rica, pois esses são demônios egoístas que merecem padecer eternamente por seus pecados do consumo e sua conivência com o capital internacional, sujo, globalizado, opressor.

Se sou da direta democática sou o bastião da retidão, honestidade, ética, moral e dos bons costumes, quaisquer que sejam eles, a família. Suas conquistas em primeiro lugar, mas só as famílias que eu creio serem famílias, com todos os preceitos morais ou religiosos que eu escolho aplicar à vida dos outros para classificar-los em “bons” ou “maus”.

Se sou heterossexual, casado, com filhos, tenho uma família “normal”, não estou destoando da média, não escolhi uma vida diferente, então, por que preciso aceitar que outras pessoas possam enxergar outras possibilidades de viver? Ora, eu estou com a maioria, estamos certos, somos os “normais”, por que querm nos enfiar “goela abaixo” esses valores imorais e anormais dessa gente diferente? Não sou obrigado a ver isso  muito menos explicar para os meus filhos do que se trata. Melhor eles não terem contato com gentes diferentes ou eles também poderão ousar ser diferentes, anormais. 

Se sou homossexual, sou livre e estou exercendo meu direito à vida ue para mim é natural. Não quero que me considerem “anormal”, sou só diferente. Mas na maior parte das vezes sou um incompreendido, estão todos contra mim. Esses comerciais são machistas e só querem me fazer me sentir mal, são homofóbicos e misóginos.

Se sou homem, sou capacho, servil, submetido à sociedade, não devo ser machista, não posso ser viado. Se sou mulher, sou vítima da sociedade machista. Se sou branco, sou o demônio encarnado em capataz. Se sou negro, sou vítima da sociedade escravocrata. Se sou muçulmano, sou terrorista, se sou evangélico sou ignorante, se sou católico sou incoerente. Se sou ateu sou satanista. 

E assim seguimos. Vocês entendem os exemplos, não? Vivemos num mundo polarizado, com os ânimos à flor da pele, com sentimentos potencializados pelas mídias sociais.

Somos homens contra mulheres, brancos contra negros, ocidentais contra orientais, gays contra héteros, PTistas contra PSDBistas, comunistas contra reacionários, cristãos contra judeus contra muçulmanos contra ateus, parece que nossa vida sempre se resume a uma constante luta do “bem” contra o “mal”.

O problema é que assim estamos sempre demonizando um”lado” e santificando o outro. Ignoramos nuances e variações. Não analisamos opiniões, fatos e argumentos e sim posições. Compartimentalizamos a vida, colocamos as pessoas em gavetinhas com etiquetinhas e quem não tem gaveta tem que se encaixar em algum lado. E não damos às pessoas e a nós mesmos a possibilidade de um meio-termo. E nem a possibilidade de mudar de ideia. 

E quem é “bom” ou “mau”? E quem está certo ou errado? Primeiramente, devemos perceber que estes tipos descritos são só aqueles histriônicos que aparecem nas mídias mais para satisfazer o próprio ego do que para qualquer outra coisa. Em segundo lugar, devemos admitir a hipótese de que ninguém é de todo “bom”, “mau”, “certo” ou “errado”. Somos milhões de combinações. Para desgosto de nossos pais, nascemos para levar nossas próprias vidas, com nossos próprios pensamentos, opiniões, erros e acertos, nosso próprio cérebro criativo criando, em vez de simplesmente “continuar” as vidas daqueles que nos geraram e que indubitavelmente se sentirão traídos pelas falsas ideias de continuidade que tinham ao optarem por ter filhos.

A maioria de nós está nos meios-termos. Às vezes somos radicais em uma ou outra opiniões isoladas, mas essa não é a regra e sim a exceção. Infelizmente alguns de nós sucumbem ao comportamento de manada, o comportamento de turba insandecida, e acabamos repetindo mantras que nos polarizam cada vez mais, nos aproximando de radicais com os quais não nos identificamos.

Contra os teóricos da heterofobia, da PeTralhada, da Elite Branca Raivosa, dos Reaças, enfim, contra os criadores das caixinhas, gavetinhas e etiquetinhas que tornaram 2015 o ano da intolerância, proponho uma nova ordem nacional. Proponho uma aliança de pensamentos. Proponho o desabrochar dos analistas, dos pareceres, dos estudos, das opiniões. E proponho que analisemos nossos erros e acertos e que nos permitamos mudar de ideia quando descobrimos que nossas ideias antigas não mais nos representam.

Sejamos intolerantes apenas com a intolerância. Que venha 2016, e que seja o ano nacional da tolerância.

 

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Eataly, New York

Nesta última visita a Nova York resolvi conhecer o famoso Eataly. Sinceramente, fiquei impressionado. Muito bem impressionado, diga-se de passagem, com a qualidade (e ao mesmo temo a simplicidade) de pratos tão genuínos e saborosos, atendimento tão atencioso e ao mesmo tempo despretensioso. Um ambiente acolhedor, parecendo uma mistura de restaurante, empório e mercadão.

Por mais que você tenha ouvido falar bem ou mal da versão paulista deste restaurante, visite o de Nova York quando tiver a oportunidade. Realmente, sem sombra de dúvida, vale a pena.

  

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A Terceira Guerra Mundial Começou

A Terceira Grande Guerra está em andamento. Um pouco antes do previsto, mas mais atrasada do que o necessário. Creio que, pelo menos, tenhamos aprendido um pouquinho em relação à Segunda Guerra.

Se você acha que estou exagerando, analisemos juntos as situações para ver se faz algum sentido meu raciocínio…

Considera-se como o marco inicial da Segunda Grande Guerra a invasão da Polônia pela Alemanha nazista de Hitler, seguida pela invasão da Polônia a leste pela União Soviética de Stálin. Os Soviéticos e os Alemães firmaram um acordo de não-agressão, mas França, Inglaterra e outros países da Grã-Bretanha declararam guerra à Alemanha logo depois.

Entretanto, claro que Hitler não sonhou com seu Império Alemão unificado em torno da raça ariana em uma noite e invadiu a Polônia na manhã seguinte: o processo que culminou por desencadear a Segunda Guerra começou muito antes, já na reorganização Europeia no pós-Guerra, a partir de 1919, quando o Império Alemão, esfacelado, dá origem à República de Weimar, democrática, endividada e enfraquecida. Coube justamente aos democratas a ingrata tarefa de negociar o fim da guerra. Sua situação só piora com o isolamento comercial e em seguida a crise de 1929. O povo alemão, humilhado e empobrecido, acaba culpando os social-democratas por sua situação e se volta a um líder militar ultra-nacionalista do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores, que através de seus discursos inflamados contra os “inimigos do povo alemão” restaura seu orgulho. Este líder você já sabe quem é…

A raiz de todos os problemas Alemães está no acordo firmado no final da primeira guerra. O fato é que a guerra nunca acabou. Vários conflitos secundários se seguiram em diferentes regiões do globo. O orgulho Nazista alemão e o orgulho Soviético se encontraram quando decidiram quase simultaneamente extinguir a Polônia, país que só foi reestabelecido justamente como parte do armistício do pós-primeira-guerra. Vê como tudo dá voltas? A Segunda Guerra na verdade foi a continuação da Primeira.

Porque chegamos a este ponto? Há quem diga que deixaram Hitler crescer muito sem supervisão. Ele pegou um povo humilhado e criou seu exército de doidos assassinos. Sem supervisão nenhuma. Ou melhor, sob as barbas da Inglaterra, da França e dos Estados Unidos, que preferiam não interferir nos “problemas internos da Alemanha”. Ora, estes problemas internos da Alemanha foram causados por eles mesmos com a negociação do pós-primeira-guerra!!

Em que situação nos encontramos hoje? Ora, o mundo árabe foi redesenhado no pós-segunda-guerra… O ditador do Iraque oprimia os não-Sunitas. O ditador da Síria impôs seu modelo de Estado. O ditador militar do Egito impôs sua república democrática de fachada. E assim por diante, o povo árabe, oprimido começa a se revoltar contra seus opressores. No caso de Saddam Hussein, nem deu tempo, pois a interferência Norteamericana o derrubou.

Um povo oprimido, invadido, liderado por elites diversas, amigos dos Estados Unidos… Hmmmm Alguma semelhança?

Então, um grupo de loucos começa a invadir cidades e conquistar territórios, para criar seu modelo-ideal de País, uma República Islâmica, na verdade um Estado Islâmico (pois República é coisa de Ocidental, né?)… Você percebe mais alguma semelhança? Nenhum país, por enquanto, foi extinto, mas partes da Síria e do Iraque já estão sob controle do EI.

A França que, junto com os Estados Unidos apoiou os rebeldes da Síria, acabou sofrendo ataques terroristas em Paris, e declara Guerra ao Estado Islâmico. Russia e Estados Unidos também seguem, com discurso suficientemente agressivo, ainda sem falar em “Guerra” oficialmente. Muitas pessoas hoje dizem que deixaram o Estado Islâmico ganhar muito espaço, que deveriam ter acabado com eles antes. Vê mais alguma semelhança? Pois é…

Agora a diferença: Hitler representava um Estado, um País e uma Nação. O Estado Islâmico representa um Estado não-reconhecido. Não possuem País, apenas regiões ocupadas, nem Nação, apenas seguidores. Aliás, creio que o nosso conceito de “País” não se enquadra nas visões deles…

Aparentemente, então, deixamos mais uma vez um grupo de gente louca surgir e tocar o terror. O mundo reagiu. Demorou, mas reagiu. Não demorou tanto quanto na Segunda Guerra, mas demorou. Mas reagiu. Será que então aprendemos algo com a Segunda Guerra? Será que reagimos a tempo, antes de que um mal maior ainda aconteça?

Se isso não é a Terceira Guerra Mundial, eu não sei o que isso é.

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Primeira Pessoa: uma nova fase.

Depois de um longo hiato, decidi retomar o blog Primeira Pessoa para comentar alguns assuntos que me afligem e ideias que me atormentam. Nesta nova fase tentarei trazer mais opinião, de forma mais madura, mais analítica, ou sintética, quando apropriado, mas deixando de lado ideias pré-concebidas e procurando estimular a análise objetiva de vários ângulos. Haverá conclusões? Talvez. Haverá dúvidas? Certamente. Haverá incorreções? Seguramente. Mas tenham em conta que isso se dará sempre com boas intenções e nunca de forma a tentar manipular a verdade.

Até porque ninguém lê isso aqui além do próprio autor, que só precisa de um lugar para desabafar.